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Jun
29

A Trilha do Rio do Boi - O relato de uma sedentária corajosa

Fiz a Trilha do Rio do Boi em novembro de 2009* carregando uma mochila de puro sedentarismo. Até hoje recebo e-mails de gente que leu o meu relato e por causa dele tomou coragem e enfrentou esta desafiadora experiência.

Por este motivo, sempre que há uma oportunidade, retomo o material para estimular quem está dúvida ou atiçar ainda mais quem está querendo muito fazer uma aventura que renderá histórias incríveis para toda a vida.

O RELATO

O quê: Trilha do Rio do Boi
Onde: Interior do Cânion Itaimbezinho, no Parque Nacional de Aparados da Serra
Quando: 1º de novembro de 2009
Com quem: Grupo do guia Estéfano Pereira
Como: Caminhada de 8,5 km, por terreno pedregoso e com travessia de rio.
Duração: Das 11h às 18h30

Dez dias depois de ter feito a Trilha do Rio do Boi, recuperada das dores musculares e dos pequenos hematomas, já me sinto pronta para relatar a experiência. Antecipo para os curiosos ou àqueles que não queiram seguir adiante na leitura (extensa) que foi uma experiência incrível e inesquecível.

Há muito tempo eu devia para mim, para os meus amigos condutores da Acontur e também aos leitores do Cambará Online uma visita ao interior do Cânion. E não era falta de vontade e sim de oportunidade. Eis, que no dia 1º de novembro de 2009, os planetas se alinharam e eu resolvi testar a atividade. Mais tarde descobri que estaria testando a mim mesma.

ALGO MAIOR
Essa sensacional experiência, de conhecer o interior do Cânion Itaimbezinho, é divulgada no Cambará Online e comercializada pelas agências simplesmente com o nome de Trilha do Rio do Boi. Acho que não deveria ser chamada assim. É algo muito maior.

Eu não sei se foi o nome “Trilha do Rio do Boi” ou foi de tanto ouvir relatos de gente experiente, como o Andrews, o Michel, o Estéfano, a Silvana, amigos da Acontur, que eu me convenci de que essa trilha não era tão difícil. E talvez por isso a fiz e fui tão segura no dia de fazê-la. Bem na verdade, eu fui de “sangue doce”, como dizem aqui no “Rio Grande”, sem ter muita ideia do que me esperava.

ORIENTAÇÕES ANTES DA TRILHA
Na guarita do parque, em solo catarinense (Praia Grande), eu e meu grupo, pessoas muito queridas e de vários lugares, escutamos as orientações do Estéfano, o nosso guia. Fazia um calor infernal, que surpreendeu todo mundo, principalmente, os serranos.

Caminhamos por um curto percurso dentro de uma mata aberta. Em seguida vi as primeiras pedras que nos acompanhariam no decorrer do caminho e ficariam ainda maiores. O rio estava lá, sempre presente. Isso eu sabia. Só o que eu não sabia é que o atravessaríamos tantas vezes.

A BATALHA
Na primeira hora de trilha eu já estava cansada e não era por causa da caminhada ou das pedras, que ainda eram pequenas, mas sim, em função do calor. Teríamos mais 6h30min de trilha pela frente. Teve um momento em que eu senti a minha visão embaçar e pensei: “Só falta eu desmaiar e acabar com o passeio de todos”.

Começa aqui uma batalha com o meu corpo e com a minha mente. Começa a batalha de superação dos meus limites. Na segunda vez em que atravessamos o rio tratei de tomar aquele banho. Foi a maneira que encontrei para dar ânimo ao meu corpo. A água gelada me deu energia para seguir em frente.

COBRAS
Conforme íamos caminhando as pedras iam aumentando, em tamanho e quantidade. Ou seria a minha imaginação? E o nível de dificuldade também aumentava. Num determinado ponto, o guia nos mostra um morrinho de pedras pequenas e sobrepostas. E pergunta: “Vocês sabem o que é isto?”. Eu, cansada, respondo: “No Peru isso é chamado de árvores de pedra e são oferendas feitas aos deuses”. Quisera eu que fosse isso mesmo.

O guia explica que são lugares indicativos de ninhos de cobras. Eu não gostei nada disso. Se os ninhos existem, as cobras também. E o que me garante que elas não gostam de sair num dia ensolarado e quente? Dos primeiros ninhos eu só fiz fotos de longe. É fobia!

PEDRAS
Trilhar por um terreno onde há somente pedras é desafiador. Lembrei da minha infância quando brincava de pular nas pedras. Só que no Rio do Boi não é opção. Lá, a gente pula nas pedras ou nas pedras. O segredo é tentar acertar aquelas que estão seguras e não em falso, o que nem sempre era possível.

Por várias vezes as pedras escolhidas por mim se deslocavam e eu saía desabando por cima de outras. Isso só acontecia com as minhas pedras, é claro. O Estéfano, o guia, por exemplo, parecia que já conhecia todas e sabia exatamente onde pisar.

ENTRANDO NUM TRANSE
De vez em quando a gente entrava numa espécie de transe, de tanto pular pedras. Sabe uma coisa assim meio sem olhar onde está indo? Só olhando para o chão? Aí acontecia de nos batermos ou duas pessoas escolherem a mesma pedra para pular ao mesmo tempo ou concentrar tanto, como eu fiz, que de repente se vê ao lado de vários ninhos de cobras. Sim, eu fiz isso. Levei um baita susto. Aí, antes de disparar, aproveitei para fazer uma foto bem pertinho. Já que estava ali, né?

EQUILÍBRIO E CONCENTRAÇÃO
Outra situação muito tensa era o pular de uma pedra baixa para uma mais alta ou vice-versa. Às vezes me desequilibrava e quase caía. Dava aquele susto, do coração quase sair pela boca. E os joelhos... Nossa! Sem explicação! Esses nunca mais serão os mesmos.

Um dos meus receios era torcer os pés e me machucar. Em condições normais e usando chinelos eu já consigo essa proeza. Então, me cuidei muito para não cair ou ter uma torção.

Como eu queria fazer fotos acabava ficando por última na trilha. E muitas vezes o grupo se distanciava tanto que eu não conseguia mais vê-los. Na tentativa de alcançar o pessoal, ou por medo de ficar lá sozinha, no meio daquele desfiladeiro de cânions, eu apressava a caminhada e aí quase levava os tombos.

Levei um pequeno, que me fez quebrar meia dúzia de unhas (para não quebrar o resto do corpo) e esse momento me mostrou o quanto o controle da mente é necessário numa situação dessas. Falei para mim: “Daiana, te acalma senão tu vais te quebrar todinha”.

PRESENTE DA NATUREZA
Agora, uma coisa era engraçada. Sempre após um percurso cansativo, para mim, éramos agraciados pelo Cânion Itaimbezinho com algum presente. Paredes enormes de onde surgiam cachoeiras lindas ou uma moldura em especial daquela paisagem. Uma das cachoeiras tinha até um arco-íris. E as piscinas naturais? Nossa! Para mim foi a melhor parte. Revigorava o corpo de uma maneira incrível. A água era geladíssima e funcionava como um analgésico.

MÃO AMIGA
Durante todo o percurso eu perdi as contas de quantas vezes foi necessário atravessar o rio. E esse era outro desafio. A água era baixa, porém, a correnteza era forte demais e no fundo haviam pedras de todos os tamanhos. Às vezes eu conseguia trancar os pés entre as pedras.

Era tão bom quando uma mão amiga aparecia para dar uma força... Era só aparecer uma mãozinha que eu já pegava! Teve uma hora que quando eu vi era o guia de outro grupo, de Praia Grande (SC), que estava me ajudando a atravessar o rio.

A solidariedade foi o que mais me chamou a atenção nessa experiência. O pessoal do meu grupo era muito parceiro. Uns sempre cuidando dos outros. Olhando, ajudando ou carregando a minha câmera (Gregor, obrigadão!). Bacana mesmo.

ACORDA!
Três horas e meia depois, caminhando, sem forças, eu já nem pensava mais nas cobras. Foi quando, de repente, escutei aquela frase horrorosa: “Cuidado com a cobra!”. Ui! Dei o maior salto da minha vida. É aquele negócio que a gente pula sem ter visto nada e vai para sei lá aonde.

Eu quase pisei em um filhote de cobra pensando que fosse um filete d´água na pedra. Se não fosse uma amiga da trilha me avisar teria esmigalhado a coitadinha e seguido em frente. E essa foi a única cobrinha que eu vi durante a travessia. Mas, no cansaço que eu tava, olhando sempre para o chão, posso até ter passado por muitas cobras e não ter visto.

PLANO DE FUGA
Em vários momentos pensei em me esconder do grupo e esperar que eles chamassem o resgate pra me buscar (rsssss). Mas, ia demorar tanto para os bombeiros chegarem que pensei que não seria negócio eu esperar "carona" e de repente ficar lá e ser comida por um leão. De qualquer forma foi interessante. Faz a gente repensar muita coisa e valorizar tantas outras, como a água.

A minha água acabou na metade da trilha. Se no início da caminhada eu tinha dúvidas se era possível beber a água do rio, nessa hora eu não quis nem saber se era potável, se tinha muito ferro, se tinha bichinho. É a lei da sobrevivência. Enfim, bebi a água do rio e não passei mal.

EU E A NATUREZA
Em muitos momentos me senti com se estivesse na selva, à mercê da força da natureza e de seus animais. A primeira vez, que precisei me segurar numa pedra cheia de aranhas correndo, foi um pesadelo. Depois percebi que era melhor eu aprender a conviver com elas do que cair e me machucar. Mandei a seguinte mensagem para o meu cérebro: “Essas aranhas são como formigas. Não precisa te apavorar. Elas não mordem. Elas não são venenosas”.

Quando chegamos ao ponto final, o ápice do passeio, eu não consegui ficar só contemplando o famoso janelão. Eu estava preocupada porque tudo o que eu havia caminhado, até então, teria que percorrer novamente, de volta. Eu sofro por antecipação. É um péssimo defeito que eu tenho. Fiz algumas fotos, descansei, mas estava esgotada, sem forças. E isso me preocupava. De qualquer forma valeu muito chegar até aquele ponto. Muitos grupos não conseguiram ir até o final. Desistiram. Para nós, o gostinho foi de vitória.

EXAUSTÃO TOTAL
Para retornar, o Estéfano nos propôs um caminho alternativo, no qual voltaríamos pela mata e não pelas pedras. Eu já nem sabia o que era melhor ou pior. Estava tão cansada que não conseguia mais raciocinar e o Estéfano percebendo me colocou na frente do grupo.

Achei que a aventura já tinha acabado. Foi então que vi um negócio alto, cheio de pedras sobrepostas e outra frase horrorosa: “Pessoal, vamos ter que subir por aqui. Tenham cuidado!”. Subir? A gente teve que escalar umas pedras enormes! Eu confesso: Nessa hora eu estava irritada e exausta.

FORÇA TOTAL
Eu fiz coisas com as minhas pernas que até agora não consigo entender como foi possível. Precisei usar forças que também não sei de onde saíram. Nessa escaladinha básica eu escorreguei e torci um pé. Mas, resolvi não dar muita importância porque a coisa já estava triste e se eu olhasse para o meu pezinho machucado seria bem pior.

Seguimos em frente, ou melhor, para cima! E graças ao meu querido amigo Estéfano eu consegui subir, vencer muitos obstáculos dessa trilha e manter a concentração. Eu não via a hora de chegar à guarita. Parecia que uma força maior me mantinha em pé. De vez em quando sentia que no lugar de passos eu arrastava os pés. Aí, o Estéfano me chamava a atenção e pedia para eu me concentrar na caminhada.

FELICIDADE
Quando saímos da mata, no lugar próximo à guarita, senti uma felicidade imensa. Estávamos chegando. Que experiência... Superação total de todos os limites imagináveis.

Voltei para Cambará com uma a sensação boa de ter vencido. Após o banho, não havia lugar no meu corpo que eu não sentisse doer. Mesmo assim fui para a pizzaria comemorar e recordar os melhores e os piores momentos dessa maravilhosa aventura. Ainda não sei se terei filhos** e netos, mas se tiver esta será uma ótima história para contar a eles.

Daiana Silva
Jornalista
daianasilva.jornalista@gmail.com

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(*) Eu sei que já faz muito tempo que realizei a trilha e a pressão é grande, principalmente por parte do meu amigo Estéfano, para que eu enfrente novamente o desafio. A informação que eu tenho é que, agora, a Trilha do Rio do Boi está mais “light”. Será?! Uma hora dessas, eu refaço a aventura para fazer a comparação.

(**) Já tenho um filho lindo, o Murilo, de 3 aninhos. Tenho certeza de que ele irá adorar saber que a mamãe dele fez uma aventura tão incrível nos Aparados da Serra.